Revolução Farroupilha ou Guerra dos Farrapos foi como ficou conhecida a revolução ou guerra
regional, de caráter republicano, contra o governo imperial do Brasil, na então
província de São Pedro do Rio Grande do Sul, e que resultou na declaração de
independência da província como estado republicano, dando origem à República
Rio-Grandense. Estendeu-se de 20 de setembro de 1835 a 1 de março de 1845.
A
revolução, que com o passar do tempo adquiriu um caráter separatista,
influenciou movimentos que ocorreram em outras províncias brasileiras:
irradiando influência para a Revolução Liberal que viria a ocorrer em São Paulo
em 1842 e para a revolta denominada Sabinada na Bahia em 1837, ambas de
ideologia do Partido Liberal da época. Inspirou-se na recém findada guerra de
independência do Uruguai, mantendo conexões com a nova república do Rio da
Prata, além de províncias independentes argentinas, como Corrientes e Santa Fé.
Chegou a expandir-se à costa brasileira, em Laguna, com a proclamação da
República Juliana e ao planalto catarinense de Lages.
A
revolta teve como líderes: general Bento Gonçalves, general Neto, coronel
Onofre Pires, coronel Lucas de Oliveira, deputado Vicente da Fontoura, general
Davi Canabarro, coronel Corte Real, coronel Teixeira Nunes, coronel Domingos de
Almeida, coronel Domingos Crescêncio de Carvalho, general José Mariano de
Mattos, general Gomes Jardim, além de receber inspiração ideológica de
italianos da Carbonária refugiados, como o cientista e tenente Tito Lívio
Zambeccari e o jornalista Luigi Rossetti, além do capitão Giuseppe Garibaldi,
que embora não pertencesse a carbonária, esteve envolvido em movimentos
republicanos na Itália.
A
questão da abolição da escravatura também esteve envolvida, organizando-se
exércitos contando com homens negros que aspiravam à liberdade. Bento Manuel
Ribeiro Lutou em ambos os lados ao longo da guerra, mas quando acabou a
revolução ele estava ao lado do imperador.
A
justificativa original para a revolta baseia-se no conflito político entre os
liberais, que propugnavam modelo de estado com maior autonomia às províncias, e
o modelo imposto pela constituição de 1824, de caráter unitário.
O
movimento também encontrou forças na posição secundária, tanto econômica como
política, que a Província de São Pedro do Rio Grande ocupava no Brasil, nos
anos que se sucederam à Independência. Diferentemente de outras províncias,
cuja produção de gêneros primários se voltava para o mercado externo, como o
açúcar e o café, a do Rio Grande do Sul produzia principalmente para o mercado
interno. Seus principais produtos eram o charque e o couro, altamente
tributados. As charqueadas produziam para a alimentação dos escravos africanos,
indo em grande quantidade para abastecer a atividade mineradora nas Minas
Gerais, para as plantações de cana-de-açúcar e para a região sudeste, onde se
iniciava a cafeicultura. A região, desse modo, encontrava-se muito dependente
do mercado brasileiro de charque, que com o câmbio supervalorizado, e
benefícios tarifários, podia importar o produto por custo mais baixo. Além
disso, instalava-se nas Províncias Unidas do Rio da Prata uma forte indústria
saladeiril, e que, junto com os saladeros do Uruguai, competiria pela compra de
gado da região, pondo em risco a viabilidade econômica das charqueadas
sul-rio-grandenses. Consequentemente, o charque rio-grandense tinha preço maior
do que o similar oriundo da Argentina e do Uruguai, uma queixa que era feita
pelos rio-grandenses desde pelo menos 1804. A tributação da concorrência
externa era uma exigência dos estancieiros e charqueadores. Porém essa
tributação não era do interesse dos principais compradores brasileiros, pois
veriam reduzida sua lucratividade em razão do maior dispêndio na manutenção dos
escravos.
Há
que considerar, ainda, que o Rio Grande do Sul era região fronteiriça aos
domínios hispânicos situados na região platina. Devido às disputas territoriais
nessa área, nunca fora uma Capitania Hereditária no período colonial e, sim,
parte de seu território, desde o século XVII ocupado por um sistema de
concessão de terras e poder a chefes militares. O poder dos estancieiros era
exercido muitas vezes na defesa de seus próprios interesses privados e entrava
frequentemente em choque com a autoridade dos comandantes militares,
representantes da Coroa. Porém, a importância do estancieiro-soldado era
tamanha que a Coroa transigia, fazendo vista grossa às arbitrariedades, dando
uma dose de autonomia ao poder local. Na então recente e desastrosa Guerra da
Cisplatina, que culminou com a perda da área territorial do Uruguai,
anteriormente anexada ao Brasil, o comando geral, apesar dos inúmeros
candidatos locais qualificados, foi dado ao Marquês de Barbacena, oriundo da
corte imperial, despreparado para o cargo e responsabilizado pela derrota.
Os
contatos frequentes, inclusive propriedades e negócios do outro lado da
fronteira, mostraram aos caudilhos locais as vantagens de uma república, com
suas bandeiras de igualdade, liberdade e fraternidade trazidas da Revolução
Francesa. Além disso a imposição de presidentes provinciais por parte do
governo imperial ia contra o direcionamento político da Assembleia Legislativa
Provincial do Rio Grande do Sul, criando mais um motivo de desagrado da elite
regional.
Também
é preciso citar o conflito ideológico presente no Rio Grande do Sul, que havia
sofrido diversas tentativas menores de criação de uma república, iniciando com
as tentativas insanas de Alexandre Luís de Queirós e Vasconcelos, que proclamou
a república três vezes no início do século XIX, ou a Sedição de 1830, que
visava a substituir a monarquia pela república em Porto Alegre e que teve a
participação de diversos imigrantes alemães (Otto Heise, Samuel Gottfried Kerst
e Gaspar Stephanousky), mas foi prontamente sufocada.
O
descontentamento reinante na província foi objeto de diversas reuniões
governamentais, especialmente a partir de 1831, quando começam a circular insistentes
boatos sobre a separação da província visando a unir-se ao Estado Oriental,
também preocupados com informações de que, na fronteira, se pregava a
revolução, sendo prometida a liberdade aos escravos. No Uruguai vivia refugiado
o padre Caldas, revolucionário da confederação do Equador, que mantinha um
jornal de ideias republicanas, além de animada correspondência com os
comandantes da fronteira, incluindo Bento Gonçalves.
O
conflito ideológico foi exacerbado com a criação da Sociedade Militar, no Rio
de Janeiro, um clube com simpatia pelo Império e fomentador da restauração de
D. Pedro I no trono brasileiro. Um dos seus líderes foi o Conde de Rio Pardo,
que ao chegar a Porto Alegre em outubro de 1833, fundou ali uma filial. Os
estancieiros rio-grandenses não viam com bons olhos a Sociedade Militar e
pediam que o governo provincial a colocasse na ilegalidade. Entre os protestos
eclodiu uma rebelião popular, liderada pelos majores José Mariano de Matos e
João Manuel de Lima e Silva que foi logo abafada e seus líderes punidos.
Os Farrapos
Farroupilhas
ou farrapos é a maneira como foram chamados todos os que se revoltaram contra o
governo imperial, e que culminou com a Proclamação da República Rio-Grandense.
Era termo considerado originalmente pejorativo, já utilizado pelo menos uma
década antes da Guerra dos Farrapos para designar os sul-rio-grandenses
vinculados ao Partido Liberal, oposicionistas e radicais ao governo central,
destacando-se os chamados jurujubas. O termo, oriundo do parlamento, com o
tempo foi adotado pelos próprios revolucionários, de forma semelhante à que
ocorreu com os sans-culottes à época da Revolução Francesa. Seus oponentes
imperiais eram por eles chamados de caramurus ou camelos, termo jocoso em geral
aplicado aos membros do Partido Restaurador no Parlamento Imperial.
Bento Gonçalves |
Em
1831, no Rio de Janeiro, havia os jornais Jurujuba dos Farroupilhas e Matraca
dos Farroupilhas. Em 1832 foi fundado o Partido Farroupilha pelo tenente Luís
José dos Reis Alpoim, deportado do Rio para Porto Alegre. O grupo se encontrava
na casa do major João Manuel de Lima e Silva (tio de Luís Alves de Lima e
Silva, que viria a ser o Duque de Caxias), casa esta que era sede também da
Sociedade Continentino, editora do jornal O Continentino, ferrenho critico ao
Império. Em 24 de outubro de 1833, os farroupilhas promoveram um levante contra
a instalação da Sociedade Militar em Porto Alegre.
Inicialmente,
reivindicavam a retirada de todos os portugueses que se mantinham nos mais
altos cargos do Império e do Exército, mesmo depois da Independência,
respaldados pelo Partido Restaurador ou caramuru. Os caramurus almejavam a
volta de D. Pedro I ao governo do Brasil.
No
entanto, é bom notar que entre os farrapos havia os que acreditavam que só tornando
suas províncias independentes poderiam obter uma "sociedade chula",
ou seja, administrada por provincianos. Havia, portanto, estancieiros,
estancieiros-militares, farroupilhas-libertários, militares-libertários,
estancieiros-farroupilhas, abolicionistas e escravos que buscavam a liberdade,
e assim por diante, numa combinação e interpenetração ideológica sem fim.
Inicialmente nem todos eram republicanos e separatistas, mas os acontecimentos
e os novos rumos do movimento conduziram a esse desfecho.
A
maçonaria sulista, tendendo aos ideais republicanos, teve importante papel nos
rumos tomados, sendo que muitos dos líderes farroupilhas foram seus adeptos,
dentre eles, Bento Gonçalves da Silva, com o codinome Sucre. Bento organizou
outras lojas maçônicas no território rio-grandense, o que lhe havia sido
permitido desde o ano de 1833.
No
ano de 1835 os ânimos políticos estavam exaltados. O descontentamento de
estancieiros, liberais, industriais do charque e militares locais promoviam
reuniões em casas de particulares, destacando-se a figura de Bento Gonçalves.
Naquele ano foi nomeado como presidente da província Antônio Rodrigues
Fernandes Braga, que chegara ao posto pela indicação de Bento Gonçalves e,
apesar de ser rio-grandense, passara tanto tempo servindo o Império na Europa e
nos Estados Unidos, logo após seus estudos em Coimbra, que não tinha laços
suficientemente sólidos estabelecidos no Rio Grande. Fernandes Braga, apesar de
inicialmente ter agradado aos liberais, logo entrou em atrito. Na sessão
inaugural da Assembleia Provincial em 22 de abril, perante uma plateia
majoritariamente hostil, acusou os liberais extremados de planejarem separar o
Rio Grande do Sul do Império e uni-lo ao Uruguai. O presidente da província,
secundado pelo comandante das armas Sebastião Barreto Pereira Pinto, mencionava
Bento Gonçalves e referindo-se também a Lavalleja e ao seu mentor, o indigno
Padre Caldas. Houve protestos e contraprotestos nas acaloradas sessões
seguintes, Fernandes Braga ainda tentou corrigir-se e apaziguar os ânimos, mas
já era tarde demais. A discussão também seguia na imprensa, de maneira muitas
vezes violenta e extremada.
Na
noite de 18 de setembro de 1835, em uma reunião onde estavam presentes José
Mariano de Mattos (um ferrenho separatista), Gomes Jardim (primo de Bento e
futuro presidente da República Rio-Grandense), Vicente da Fontoura
(farroupilha, mas antisseparatista), Pedro Boticário (fervoroso farroupilha),
Paulino da Fontoura (irmão de Vicente, cuja morte seria imputada a Bento
Gonçalves, estopim da crise na República), Antônio de Sousa Neto (imperialista
e farroupilha, mas que simpatizava com os ideais republicanos) e Domingos José
de Almeida (separatista e grande administrador da República), decidiu-se por
unanimidade que dentro de dois dias, no dia 20 de setembro de 1835, tomariam
militarmente Porto Alegre e destituiriam o presidente provincial Antônio
Rodrigues Fernandes Braga.
Em
várias cidades do interior as milícias foram alertadas para deflagrarem a
revolta. Bento comandava uma tropa reunida em Pedras Brancas, hoje cidade de
Guaíba. Gomes Jardim e Onofre Pires comandavam os farroupilhas aquartelados,
com cerca de 200 homens, no morro da Azenha, o atual cemitério São Miguel e
Almas. Também mantinham, no dia 19 de setembro de 1835, um piquete com trinta
homens nas imediações da ponte da Azenha sobre o arroio Dilúvio, comandado por
Manuel Vieira da Rocha, o cabo Rocha, que aguardava o amanhecer do dia 20 para
investir, junto com o restante da tropa, contra os muros da vila. Porém
Fernandes Braga ouvira alguns boatos e, desconfiado, mandou uma partida de 9
homens sob o comando de José Gordilho de Barbuda Filho, o 2° visconde de
Camamu, fazer um reconhecimento durante à noite. Descuidados e inexperientes,
os guardas imperiais se deixaram notar e foram atacados pelo piquete
republicano e fugiram, resultando 2 mortos e cinco feridos. Um dos feridos, o
próprio visconde, sujo e ensanguentado alertou Fernandes Braga da revolta. Eram
11 horas da noite de 19 de setembro de 1835.
Fernandes
Braga ainda tentou organizar uma resistência e, ao amanhecer, estava junto ao
arsenal de guerra, hoje ponta do gasômetro, tentando reunir homens para a
resistência. Porém, até o meio da tarde somente 17 homens se apresentaram para
defender a cidade, pois o 8° Batalhão de Caçadores, comandado por João Manuel
de Lima e Silva havia se declarado revolucionário. Vendo a escassez de armas e
munição, Braga resolveu fugir a bordo da escuna Rio-Grandense seguido pela
canhoneira 19 de Outubro, indo parar em Rio Grande, então maior cidade da
província. Deixou sua esposa, família e as chaves do palácio aos cuidados do
cônsul norte-americano, Isaac Austin Haÿes, que também deu proteção a outras
famílias.
Os
farroupilhas adiaram a investida combinada, devido ao inusitado da noite
anterior. Somente ao amanhecer o dia 21 de setembro de 1835 chegaram às portas
da cidade Bento Gonçalves e os demais comandantes, seguidos por suas
respectivas tropas. Porto Alegre abandonada, sem resistência, entregou-se aos
revolucionários. No resto da província apenas alguns focos de resistência em
Rio Pardo e São Gabriel, além de Rio Grande, mantinham os farroupilhas
ocupados.
A
Câmara Municipal reuniu-se extraordinariamente para ocupar o cargo de
Presidente. Na ausência dos vice-presidentes imediatos, assumiu o quarto vice,
Marciano Pereira Ribeiro. Em 25 de setembro Bento Gonçalves expediu uma carta
ao regente imperial, padre Diogo Antônio Feijó, explicando os motivos da
revolta e solicitando a nomeação de um novo Presidente e comandante das armas.
Os revoltosos davam, então, o conflito por encerrado.
A reação imperial
De
Rio Grande, Fernandes Braga embarcou para o Rio de Janeiro em 23 de outubro,
capital do Império do Brasil. Uma vez na Corte, Braga passou a sua versão da
história, bastante diferente da carta enviada por Bento Gonçalves. O novo
indicado, José de Araújo Ribeiro, veio acompanhado de um verdadeiro aparato de
guerra: onze brigues e escunas, além de diversas canhoneiras, lanchas e iates,
carregados de armamento e muitos soldados imperiais, sob o comando do capitão
de mar e guerra John Pascoe Grenfell.
Araújo
Ribeiro chegou a Porto Alegre no início de dezembro, devendo tomar posse em 9
de dezembro. Uma confusão em relação ao papel de Pereira Duarte no apoio à
causa farroupilha fez com que fosse adiada a posse, retirando-se Araújo Ribeiro
para Rio Grande, com intenção de retornar à Corte. Lá foi convencido por Bento
Manuel e outros amigos a permanecer, com a promessa de apoio à Presidência,
tomando então posse perante a Câmara Municipal de Rio Grande, em 15 de janeiro
de 1836. Bento Manuel, que havia apoiado a revolta inicial e ainda iria trocar
de lado na disputa duas vezes, deslocou-se para o interior e depois para Porto
Alegre com o intuito de cercá-la. Os liberais receberam a posse de Araújo
Ribeiro como declaração de guerra, reunindo seus soldados que estavam dispersos
desde outubro, sob a presidência de Marciano Ribeiro.
Como
Presidente Imperial da Província, Araújo Ribeiro tratou de recompor seu
exército, reunindo oficiais gaúchos contrários aos farroupilhas, como João da
Silva Tavares, Francisco Pedro de Abreu (o Chico Pedro ou Moringue), Manuel
Marques de Sousa, mais tarde conde de Porto Alegre, Bento Manuel Ribeiro,
Manuel Luís Osório (hoje patrono da cavalaria do Brasil), e até mesmo
contratando mercenários vindos do Uruguai. Administrativamente mandou fechar a
Assembleia Provincial e destituiu Bento Gonçalves do comando da Guarda
Nacional, nomeação feita por Marciano José Pereira Ribeiro, desautorizando-o.
Iniciou-se aí a resistência em Rio Grande e a perseguição aos revoltosos. No
Rio de Janeiro o governo proibiu a utilização da alfândega de Porto Alegre,
enquanto a cidade estivesse em posse dos rebeldes, restringindo a chegada de
navios.
Anita Garibaldi |
Em
abril de 1836, o comandante-das-armas farroupilhas, João Manuel de Lima e
Silva, prendeu o major Manuel Marques de Sousa, que foi trazido junto com os
demais prisioneiros para o navio-prisão Presiganga. Na noite de 15 de junho de
1836, com a ajuda de um guarda corrupto, os prisioneiros foram soltos e, sob o
comando de Marques de Sousa e com ajuda de Bento Manuel, os Imperiais retomaram
a cidade de Porto Alegre das mãos dos farroupilhas. Foram presos Marciano
Ribeiro, Pedro Boticário e mais 32 revoltosos. A casa do cônsul norte-americano
foi invadida em 17 de setembro e revistada em busca de armas e revoltosos. Dois
dias depois o cônsul foi preso, na prisão ameaçado pelo visconde de Castro e
general-brigadeiro Carneiro se não escrevesse ao general João de Deus Mena Barreto
requerendo sua liberdade. O cônsul foi libertado alguns dias depois e retornou
aos Estados Unidos depois de alguns meses.
Dias
depois, Bento Gonçalves tentou retomar a capital, mas foi rechaçado e começou
uma série de sítios ao redor da cidade que terminou definitivamente somente em
dezembro de 1840. Sem o controle da capital e do único porto marítimo da
província, os revoltosos estabeleceram quartel-general na cidade de Piratini.
Giuseppe Garibaldi |
Em
21 de agosto, as tropas navais de Grenfell têm sua primeira vitória, com a
tomada do forte do Junco, num ataque comandado pelo capitão-tenente Guilherme
Parker, com o brigue-escuna Leopoldina, o patacho Vênus e seis canhoneiras,
além de uma tropa de infantes comandados pelo coronel Francisco Xavier da Cunha.
Cinco dias depois, o forte de Itapoã foi conquistado, deixando aberto aos
imperiais o acesso fluvial a Porto Alegre.
República Rio-Grandense
No
início de setembro de 1836 Antônio de Sousa Neto deslocou-se à região de Bagé,
onde o imperial João da Silva Tavares, vindo do Uruguai, mantinha o
desassossego entre os farroupilhas residentes. A Primeira Brigada de Neto, com
quatrocentos homens atravessou o arroio Seival e encontrou as tropas de Silva
Tavares (560 homens) sobre uma coxilha. Era a tarde de 10 de setembro de 1836
quando começou a batalha do Seival. Silva Tavares desceu a coxilha em desabalada
carga. Neto ordenou também a carga de lança e espada, sem tiros. As forças se
encontraram em sangrento combate. Silva Tavares fugiu e seus homens foram
derrotados. Os farrapos ficaram quase intactos, enquanto do outro lado havia
180 mortos, 63 feridos e 100 prisioneiros.
David Canabarro |
Donos
do campo, os farroupilhas comemoraram vibrantemente a vitória. Cresceu a
vontade separatista de conquistar e manter um país rio-grandense independente,
entre as nações do mundo. À noite as questões ideológicas foram revistas e
Lucas de Oliveira e Joaquim Pedro, republicanos ardorosos, catequizaram Neto,
argumentando que não havia outra saída a não ser enveredar pela senda da
independência e que não havia outro desejo popular a não ser o desejo de
liberdade, de abolição da escravatura e de democracia sob o sistema
republicano. Se tivesse que acontecer, a hora era aquela, a hora da vitória, do
júbilo, da afirmação. Neto passou a simpatizar com a ideia, mas resistiu diante
de uma provável reprovação de seus pares. Pensava que tal proclamação de uma
nova República deveria partir de Bento Gonçalves, o grande comandante de todos
os farrapos. Contrapuseram que Bento já se decidira pela república, que
hierarquia rígida era coisa do império e que o sistema republicano centrava-se
no povo, suas vontades e necessidades, e não na elite governativa.
Duque de Caxias |
Finalmente,
aquiescendo o coronel Neto, passaram a escrever a Proclamação da República
Rio-Grandense que seria lida e efetivada por ele, perante a tropa perfilada, em
11 de setembro de 1836.
Após
a cerimônia de Proclamação, irromperam todos em gritos de euforia, liberdade e
vivas à República, com tiros para o alto e cantorias. Logo chegou a galope o
tenente Teixeira Nunes, empunhando pela primeira vez a bandeira tricolor,
mandada fazer às pressas em Bagé e passa a desfilar por entre seus companheiros
com a bandeira verde, vermelha e amarela da República Rio-Grandense,
comemorando sua independência.
Foram
conclamadas as demais províncias brasileiras a unirem-se como entes federados
no sistema republicano, foi criado um hino nacional e bandeira própria do novo
estado, até hoje cultivados pelo Estado do Rio Grande do Sul. Também foi
estabelecida a capital na pequena cidade de Piratini, donde surgiu uma nova
alcunha, a República de Piratini.
A
partir deste momento, ocorreu a falência imediata da Revolta Farroupilha e o
início da Guerra dos Farrapos propriamente dita. A mudança de posicionamento
dos Farrapos foi imediata.
Já
não desejavam mais substituir o Presidente da Província de São Pedro do Rio
Grande por outro, pois agora haveriam de ter um Presidente da República
independente.
Os
combatentes não era mais revoltosos farroupilhas, mas soldados do Exército
Republicano Rio-Grandense.
O
pavilhão que defendiam não era mais a bandeira imperial verde-amarela, mas a
quadrada bandeira republicana verde, vermelha e amarela em diagonal (sem o
brasão no meio).
Não
lutavam mais por reconhecimento e atenção, mas pela defesa da independência e
soberania de seu país.
Já
não era mais a luta de revoltosos em busca de justiça, mas uma guerra de
exército defensor (republicano) contra exército agressor (imperial);
A
república Rio-grandense tinha escasso apoio nas áreas colonizadas pela recente
imigração alemã. Esses imigrantes haviam se fixado na desativada Real Feitoria
do Linho Cânhamo em colônias cedidas pelo império, no Vale do Rio dos Sinos. Em
Porto Alegre, apesar da simpatia de parte das camadas médias, não recebia o
apoio popular, que mobilizava outras cidades da Província de São Pedro do Rio
Grande. Inicialmente sua base social era originária de liberais, militares,
industriais do charque e, especialmente, de estancieiros com capacidade de
liderar exércitos particulares de "peões", vaqueiros que lhes
prestavam serviços ou deles dependiam para subsistência e defesa e cuja
obediência e fidelidade era garantida por traços feudais da cultura local; e
por escravos, que no meio rural eram incluídos no convívio social dos peões.
Como havia interfaces com o Uruguai, também eram contratados elementos de lá
provenientes. Os exímios cavaleiros forjados nas lides campeiras, chamados
"gaúchos", formavam corpos de cavalaria de choque aptos a travar uma
guerra de guerrilha. Esses exércitos dispunham de alta mobilidade e
conhecimento do terreno, mas sem dispor de infantaria nem adequada artilharia,
os Farroupilhas tinham fraca capacidade bélica contra as cidades fortificadas
do Rio Grande e Porto Alegre, e pouca capacidade de defesa das praças que
controlavam.
No
dia 12 de setembro, um dia após a Proclamação da República Rio-Grandense por
Antônio de Sousa Neto, a seguir à vitória na Batalha do Seival, houve a
solenidade de lavratura e assinatura da Ata de Declaração de Independência,
pela qual os abaixo-assinantes declaravam não embainhar suas espadas, e
derramar todo o seu sangue, antes de retroceder de seus princípios políticos,
proclamados na presente declaração. Fizeram-se várias cópias da Ata, que foram
enviadas às câmaras municipais e aos principais comandantes do Exército
Republicano.
Como
resposta imediata, as câmaras de Jaguarão, Alegrete, Cruz Alta, Piratini, entre
outras, convocaram sessões extraordinárias, onde puderam analisar e corroborar
os feitos, fazendo constar em Atas Legislativas suas adesões, proclamando a
independência política da província, por ser a vontade geral da maioria.
Bento
Gonçalves não pudera estar presente devido a um fato circunstancial. Ao tomar
conhecimento do ato da Proclamação da República Rio-grandense, Bento Gonçalves
levantou seu acampamento na lomba do Tarumã , parte do sítio que impingia a
Porto Alegre, seguiu a várzea do rio Gravataí, marchou para São Leopoldo e
cruzou o rio dos Sinos e o rio Caí, passou a deslocar-se beirando o Rio Jacuí,
para junção de forças com Neto. Fatalmente ele precisava atravessar o rio na
Ilha de Fanfa, no município de Triunfo, por causa da época de cheias. Ciente
dos acontecimentos, Bento Manuel, agora a serviço do império, deslocou suas
tropas com 660 homens embarcados, a partir de Triunfo, de modo a impedir a
passagem de Bento Gonçalves.
Bento
Gonçalves decidiu cruzar o rio Jacuí para unir suas tropas com as de Domingos
Crescêncio. Na noite de 1 de outubro, levantou acampamento e, na manhã
seguinte, iniciou, com dois pontões para 40 homens, o cruzamento para a Ilha do
Fanfa. José de Araújo Ribeiro, alertado por Bento Manuel , enviou a Marinha,
comandada por John Grenfell no vapor Liberal, junto com dezoito barcos de
guerra, escunas e canhoneiras guardando o lado sul da Ilha, só percebida pelos
Farrapos depois de estarem na ilha. Fechando o cerco por terra, Bento Manuel
ficou senhor da situação. Era 3 de outubro de 1836.
Os
farrapos resistiram por três dias e, sabedores da proximidade das tropas de
Crescêncio de Carvalho, repeliram os fuzileiros que desembarcavam na ilha pela
costa sul e qualquer tentativa de travessia pelo norte. A fim de evitar mais
derramamento de sangue, Bento Manuel levantou a bandeira de “parlamento” e
Bento Gonçalves aceitou negociar. O acordo foi feito e assinado em 4 de
outubro. Os Farrapos entregariam as armas, capitulariam e voltariam livres para
suas casas. Segundo Bento Manuel, a guerra estaria terminada, com a vitória do
império. Ele pacificara a província e receberia as glórias da Corte. Porém,
Bento Gonçalves não era tão ingênuo e já havia enviado um mensageiro
solicitando socorro a Neto e Canabarro.
Depois
de desarmar e soltar os soldados, Bento Manuel manteve os chefes presos: Bento
Gonçalves, Tito Lívio, José de Almeida Corte Real, José Calvet, Onofre Pires,
entre outros, sob o pretexto de que Bento Gonçalves havia faltado com sua
palavra ao enviar emissários buscando socorro. A maior parte dos líderes do
movimento foi presa na Presiganga, depois enviada à Corte e por fim encarcerada
na prisão de Santa Cruz e no Forte da Laje, no Rio de Janeiro.
Na
sessão extraordinária da Câmara de Piratini, na primeira capital da República
Rio-Grandense, em 6 de novembro de 1836, procedeu-se formalmente a votação para
Presidente da República, conforme os parâmetros da época. A eleição foi vencida
por Bento Gonçalves (mesmo sem estar presente e sem campanha) e primeiro
vice-presidente José Gomes de Vasconcelos Jardim. Assumiu o vice interinamente
a presidência, nomeando o ministério e tomando a incumbência de convocar uma
Assembleia Constituinte para formar a Constituição da República Rio-grandense.
A
luta entre farroupilhas e imperiais continuou acirrada. O império despejava
rios de dinheiro para recrutar mais e mais soldados paulistas e baianos, para
comprar mais armas, mais munições, com pouquíssimo resultado prático.
General David
José Martins, o David Canabarro
|
Pelo
lado imperial, Araújo Ribeiro foi substituído a 5 de janeiro de 1837 pelo
brigadeiro Antero de Brito, acirrando mais a disputa. Bento Manuel não gostou
da demissão de seu parente e amigo e enviou uma carta a Antero de Brito,
dizendo-se doente e solicitando que portanto fosse substituído no comando das
armas. Além disso, dispensou boa parte da tropa que comandava.
Brito
passou a acumular os cargos de Comandante das Armas e de Presidente da
Província de São Pedro do Rio Grande, com capital em Porto Alegre. Se Araújo
era, acima de tudo, conciliador, Brito perseguiu e prendeu até mesmo civis
simpatizantes das ideias farroupilhas, confiscando seus bens; alguns destes
foram punidos com a pena de desterro. Em contrapartida, os farrapos eram
senhores do pampa, recebiam maciças adesões de militares descontentes com a
nomeação de Brito e, ainda em janeiro de 1837, ganharam o apoio dos habitantes
de Lages de Santa Catarina, que seria um importante ponto onde os Farrapos
comprariam armas e munições. O principal perseguido por Antero de Brito era o
Comandante das Armas Imperiais anterior a ele, nada menos que Bento Manuel
Ribeiro.
Bento
Manuel não aceitava a autonomeação de Brito e continuava a dar suas próprias
ordens às tropas. Brito, então, saiu pessoalmente ao seu encalço. Bento fugiu
mudando de direção, como numa brincadeira de gato e rato, situação que se
arrastou até o dia 23 de março de 1837, quando, num golpe de mestre, Bento
Manuel Ribeiro deixou um piquete para trás, sob o comando do major Demétrio
Ribeiro que, de surpresa, caiu sobre as tropas de Brito e prendeu o Presidente
Imperial da província. Com isso, novamente Bento Manuel foi aceito no seio
farrapo, passando a combater novamente os imperiais.
Em
8 de abril, o general Neto conquistou Caçapava do Sul, centro de
reabastecimento imperial, depois de sete dias de cerco, apreendendo 15 canhões
e fazendo prisioneiros a 540 imperiais, comandados pelo coronel João Crisóstomo
da Silva. Ainda neste ano, em 2 de julho, aconteceu o Combate de Ivaí, onde
Bento Manuel foi capturado, mas após um ataque farroupilha 50 legalistas foram
mortos, enquanto o marechal Sebastião Barreto Pereira Pinto fugiu para Caçapava
do Sul, deixando Bento Manuel ferido e desacordado no campo.
A
sustentação econômica da República era propiciada pelo apoio da vizinha
República Oriental do Uruguai, que permitia o comércio do charque produzido
pelos rio-grandenses para o próprio Brasil. A exportação era feita por terra
até o Porto de Montevidéu ou pelo rio Uruguai. Em 29 de agosto foi assassinado
o coronel João Manuel de Lima e Silva, que havia derrotado Bento Manoel
Ribeiro, no ano anterior.
Bento Gonçalves assume a
presidência
Em
15 de março de 1837, Bento Gonçalves tentou escapar da prisão, no Rio de
Janeiro, junto de outros companheiros. Porém Pedro Boticário não conseguiu
passar por uma janela, por ser muito gordo, e, em solidariedade, Bento
Gonçalves desistiu da fuga, na qual escaparam Onofre Pires e o coronel Corte
Real. Depois desta tentativa de fuga, foi transferido para a Bahia, onde chegou
em 26 de agosto de 1837, ficando preso no Forte do Mar. Conseguiu, com auxílio
da maçonaria, evadir-se da prisão baiana em 10 de setembro de 1837, poucos dias
antes do início da Sabinada. Permaneceu algum tempo, clandestino, em Itaparica
e Salvador, onde teve contato com membros do movimento. Depois de despistar
seus perseguidores, que achavam que tinha partido para os Estados Unidos em uma
corveta, chegou, via Buenos Aires, de volta ao Rio Grande do Sul e, em 16 de
dezembro de 1837, tomou posse como Presidente da República. Nesta época os
farrapos dominavam praticamente toda a província, ficando os imperiais restritos
a Rio Grande e São José do Norte.
A
29 de agosto de 1838, Bento lançou seu mais importante manifesto aos
rio-grandenses, onde justificava as irreversíveis decisões tomadas em favor da
libertação do seu povo:
“Toma na extensa escala dos
estados soberanos o lugar que lhe compete pela suficiência de seus recursos,
civilização e naturais riquezas que lhe asseguram o exercício pleno e inteiro
de sua independência, eminente soberania e domínio, sem sujeição ou sacrifício
da mais pequena parte desta mesma independência ou soberania a outra nação,
governo ou potência estranha qualquer. Faz neste momento o que fizeram tantos
outros povos por iguais motivos, em circunstâncias idênticas.”
E
no trecho final, um juramento importante:
“Bem penetrados da justiça de sua
santa causa, confiando primeiro que tudo, no favor do juiz supremo das nações,
eles têm jurado por esse mesmo supremo juiz, por sua honra, por tudo que lhes é
mais caro, não aceitar do governo do Brasil uma paz ignominiosa que possa
desmentir a sua soberania e independência.”
Com
a dificuldade em quebrar a resistência de Porto Alegre, os farroupilhas
resolveram voltar-se contra Rio Pardo, onde estava concentrada uma divisão do
exército imperial, com dois batalhões de infantaria e dois corpos de cavalaria,
comandada pelo marechal Sebastião Barreto Pereira Pinto. Os brigadeiros
Francisco Xavier da Cunha comandando a infantaria e Bonifácio Calderón a
cavalaria, num total de 1.200 combatentes. A cidade era, junto com Porto Alegre
e Rio Grande, uma das mais importantes do estado, contando com quase o dobro de
habitantes da capital.
A
concentração de tropas imperiais chamou a atenção dos farroupilhas, conscientes
das possíveis consequências desta tropa quando se movimentasse. Bento Manuel
Ribeiro, ao lado de Antônio de Sousa Neto, em 30 de abril de 1838, comandando
2.500 homens, 800 deles de cavalaria, surpreenderam a cidade, na batalha do
Barro Vermelho, na entrada da cidade, derrotando os imperiais, conquistando Rio
Pardo, a ex-tranqueira invicta, matando 71 homens e fazendo mais de 130
prisioneiros.
Este
fato foi importante por vários aspectos, dando novo impulso à rebelião. Rio
Pardo formava, com Rio Grande e Porto Alegre, a fronteira de domínio imperial,
um ponto de apoio para a conquista do interior, tinha fama de inexpugnável e a
vitória farrapa foi incontestável. Além disso, Rio Pardo tinha quase o dobro de
habitantes de Porto Alegre.
A
conquista de Rio Pardo foi importante também porque lá se encontrava, na
ocasião, a Banda Imperial, sob o comando do maestro mineiro Joaquim José
Mendanha, que viria a compor, sob a encomenda de Bento Gonçalves, o Hino
Nacional da República Rio-Grandense. Com a letra do republicano Serafim Joaquim
de Alencastre, o hino foi executado e cantado pela primeira vez na cerimônia de
comemoração do primeiro aniversário da Tomada de Rio Pardo. Hoje a música do
hino é a mesma, mas foi composta outra letra, por Francisco Pinto da Fontoura,
o Chiquinho da Vovó, para se adequar aos novos tempos.
Cabe
ressaltar que a primeira composição do Hino Nacional da República Rio-grandense
destacava a mesma ideia dos discursos de Bento Gonçalves, de não ceder à paz
vergonhosa da deposição das armas:
“Nobre povo rio-grandense. Povo
de heróis, povo bravo!
Conquistaste a independência.
Nunca mais serás escravo.”
Marinha Farroupilha
A
Marinha Imperial Brasileira controlava os principais meios de comunicação da
província, a lagoa dos Patos, entre Porto Alegre, Pelotas e Rio Grande, e a
maior parte dos rios navegáveis. Apesar disso era constantemente atacada pelos
farroupilhas, quando próximos aos barrancos dos rios. Em 1 de fevereiro de
1838, uma tropa de dois mil farrapos e uma bateria de artilharia conseguiram
atacar de surpresa duas canhoneiras e um lanchão no rio Caí, matando quase
todos os marinheiros e aprisionando um dos comandantes.
O
fator estratégico de maior efeito a favor do império era o bloqueio da barra da
lagoa dos Patos, único acesso ao porto de Rio Grande, por onde desembarcavam
continuamente os reforços imperiais, e ao mar. A república, na segunda parte do
confronto procurava manter a supremacia conquistada na região geográfica da
serra do sudeste do Rio Grande do Sul, de relevo irregular e com apenas um rio
que comunicava com a lagoa dos Patos, o Camaquã.
Foi
preciso engendrar uma manobra incomum para conquistar um ponto que pudesse
ligar o Rio Grande dos farrapos com o mar. Este ponto era Laguna, em Santa
Catarina. O primeiro passo era constituir a Marinha Rio-Grandense. Giuseppe
Garibaldi conhecera Bento Gonçalves ainda em sua prisão, no Rio de Janeiro, e
obteria dele uma carta de corso para aprisionar embarcações imperiais. Em 1 de
setembro de 1838, Garibaldi foi nomeado capitão-tenente, comandante da marinha
Farroupilha.
Foi
criado um estaleiro, junto a uma fábrica de armas e munições em Camaquã, na
estância de Ana Gonçalves, irmã de Bento Gonçalves. Lá Garibaldi coordenou a
construção e o armamento de dois lanchões de guerra. Ao mesmo tempo, Luigi
Rossetti foi a Montevidéu, buscar a ajuda de Luigi Carniglia e outros
profissionais indispensáveis. Após algumas semanas, estava completa a equipagem
de mestres e operários. Alguns marinheiros vieram de Montevidéu e outros foram
recrutados pelas redondezas.
Os
imperiais, informados dos planos farrapos, atacaram o estaleiro de Camaquã,
comandados por Francisco Pedro de Abreu, o Chico Pedro, também conhecido por
Moringue. Eram mais de uma centena de homens, cercando o galpão com quatorze
trabalhadores entrincheirados. Giuseppe Garibaldi comanda a resistência durante
horas. Quase ao anoitecer, Moringue precipitou-se do esconderijo e levou um
tiro no peito, sendo recolhido por seus companheiros, fugindo tão rapidamente
quanto chegaram.
Terminada
a construção dos barcos e lançados à água, os lanchões Seival e Farroupilha,
cortando as águas da lagoa dos Patos, acuados pela armada de John Grenfell, não
tiveram muito sucesso: capturaram alguns barcos de comércio desprevenidos, em
lagoas ou rios longe da armada imperial. Surgiu, então, o plano de levar os
barcos pela lagoa dos Patos até o rio Capivari e, dali, por terra, sobre
rodados especialmente construídos para isso, até a barra do Tramandaí, onde os
barcos tomariam o mar. Assim foi feito, mas não sem dificuldades.
Os
Farrapos, despistando a armada imperial, conseguiram enveredar pelo estreito do
rio Capivari e passaram os barcos a terra em 5 de julho de 1839. Puxando sobre
rodados, os dois lanchões artilhados, com cem juntas de bois, atravessaram
ásperos caminhos, pelos campos úmidos - em alguns trechos completamente
submersos, pois era inverno, tempo feio com chuvas e ventos, tornando o chão um
grande lodaçal. Cada barco tinha dois eixos e, naturalmente, quatro rodas
imensas, revestidas de couro cru. Piquetes corriam os campos entulhando
atoleiros, enquanto outros cuidavam da boiada.
Levaram
seis dias até a lagoa Tomás José, vencendo 90 km e chegando a 11 de julho. No
dia 13, seguiram da lagoa Tomás José à barra do rio Tramandaí, no oceano
Atlântico, e, no dia 15, lançaram-se ao mar com sua tripulação mista de 70
homens. O Seival, de 12 toneladas, era comandado pelo norte-americano John
Griggs, conhecido como "João Grandão", e o Farroupilha, de 18
toneladas, comandado por Garibaldi - ambos armados com quatro canhões de doze
polegadas, de molde "escuna". Por fim, em 14 de julho de 1839, os
lanchões rumaram a Laguna para atacar a província vizinha. Na costa de Santa
Catarina, próximo ao rio Araranguá, uma tempestade pôs a pique o Farroupilha,
salvando-se milagrosamente uns poucos farrapos, entre eles o próprio Garibaldi.
Enquanto
isto, Grenfell continuava a caça à marinha farroupilha. Com o vapor Águia e
diversas canhoneiras e lanchões, atacou a base de Camaquã e apreendeu três
lanchões e duas lanchas; mas era tarde, pois ali teve a notícia de que
Garibaldi já estava longe, a caminho de Laguna.
A República Juliana
Com
a chegada da marinha farroupilha a Santa Catarina, unindo-se às tropas do exército,
sob o comando geral de David Canabarro, foi possível preparar o ataque a Laguna
por terra e pela água. A marinha farroupilha entrou através da lagoa de
Garopaba do Sul, passando pelo rio Tubarão, e atacou Laguna por trás,
surpreendendo os imperiais que esperavam um ataque de Garibaldi pela barra de
Laguna e não pela lagoa. Garibaldi tomou um brigue e dois lanchões, enquanto
somente o brigue-escuna Cometa conseguiu escapar para o mar.
Laguna
foi tomada, com ajuda do próprio povo lagunense, em 22 de julho de 1839. Em 29
deste mês proclamou-se a República Juliana, feito um país independente, ligada
à República Rio-Grandense pelos laços do confederalismo.
Após
conquistar Laguna, as forças farroupilhas continuaram rumo ao norte,
perseguindo as tropas imperiais, avançando cerca de 70 km até a planície do rio
Maciambu. O avanço foi contido devido a um entrincheiramento das forças
imperiais, protegidas pela geografia do Morro dos Cavalos, que dificultava o
acesso das tropas farrapas e lhes bloqueava o avanço para o ataque a Desterro,
hoje Florianópolis.
Com
a tomada de Laguna, praticamente metade da província catarinense ficou em mãos
republicanas. A incorporação da vila de Lages, também sob controle rebelde, ao
novo estado, levou o território da República Juliana a se estender do extremo
meridional até o planalto catarinense. Foi então organizada a República
Juliana, sendo convocadas eleições para constituição do governo. Canabarro
ficou à frente do governo da nova república até 7 de agosto de 1839, quando foi
convocado o colégio eleitoral. Foram eleitos para presidente o tenente-coronel
Joaquim Xavier Neves e para vice o padre Vicente Ferreira dos Santos Cordeiro.
Como Xavier Neves estava em São José bloqueado pelas forças imperiais, o padre Vicente
Cordeiro assumiu a presidência.
Os
farroupilhas ainda fizeram incursões navais mais ao norte, chegando a atacar a
barra de Paranaguá em 31 de outubro de 1839. Uma escuna e um lanchão
farroupilhas capturaram a sumaca Dona Elvira, porém foram combatidos pelos
canhões da fortaleza e obrigados a retroceder. A escuna recuou rumo ao norte,
porém o lanchão, mais pesado, por ali parou e foi capturado por uma lancha com
vinte homens comandada pelo alferes Manuel Antônio Dias, sendo a lancha Dona
Elvira recuperada.
O
império impôs um bloqueio naval, que buscava estrangular a república
economicamente. Garibaldi ainda conseguiu furar o bloqueio com três barcos,
capturou dois navios de comércio, trocou tiros com o brigue-escuna Andorinha e
tomou o porto de Imbituba. Alguns dias mais tarde retornou a Laguna, em 5 de
novembro.
Pouco
tempo depois o império reagiu com força total, comandado pelo general Francisco
José de Sousa Soares de Andrea, mais conhecido como general Andrea, comandante
de armas de Santa Catarina[26], com mais de três mil homens atacando por terra.
Enquanto isto, por mar, o almirante imperial Frederico Mariath, com uma frota
de 13 navios, melhor equipados e experientes, iniciou a batalha naval de
Laguna. Garibaldi fundeou convenientemente seus cinco navios, que se bateram
contra os imperiais valentemente, mas sem chances de vitória. Nos navios
farroupilhas nenhum comandante ou oficial escapou com vida. O próprio
Garibaldi, vendo a derrota iminente, queimou seu navio, a escuna Libertadora, e
se juntou à tropa de Canabarro, que preparou a retirada de Laguna. Era o fim da
marinha farroupilha.
Os
imperiais retomaram Laguna em 15 de novembro de 1839. Garibaldi fugiu com Ana,
que se tornaria conhecida como Anita Garibaldi, uma mulher lagunense casada,
cujo esposo alistara-se no exército imperial, abandonando-a, um escândalo para
a época. Anita veio a ser sua companheira de todos os momentos, lutando
lado-a-lado com Garibaldi tanto nos pampas gaúchos como na Itália, onde é
considerada heroína.
Os campos de Lages
Em
9 de março de 1838 os farroupilhas invadiram Lages, anexando a vila à República
Rio-Grandense, com o apoio de alguns fazendeiros locais, fato que havia causado
grande júbilo entre os revolucionários: era a primeira conquista farrapa fora
do Rio Grande do Sul.
Depois
das queda de Laguna, as tropas farrapas tomaram o caminho de Lages para
retornar ao Rio Grande do Sul. Enquanto isso, o governo imperial havia decidido
enviar um contingente de tropas ao sul pelo interior, com a missão de retomar
Lages e depois auxiliar contra o cerco de Porto Alegre pelos farrapos. Em Rio
Negro reuniram-se 1.500 homens, vindos do Rio de Janeiro, Curitiba, Paranaguá,
Antonina e Campo do Tenente, deslocando-se para Santa Cecília, onde acamparam
em 25 de outubro de 1839.
Travando
pequenos combates com piquetes farroupilhas em novembro, através dos Campos dos
Curitibanos e Campos Novos, chegaram a Lages, onde retomaram a vila. Dali uma
parte da coluna do brigadeiro Francisco Xavier da Cunha decidiu seguir em
direção ao Rio Pelotas, para invadir o Rio Grande do Sul.
Os
farrapos, derrotados em Lages, se reuniram em um entreposto alfandegário, para
cobrança de impostos sobre as tropas de gado e mulas que vinham de Viamão e
seguiam para Sorocaba, conhecido como Santa Vitória.
O
brigadeiro Francisco Xavier da Cunha foi informado e para lá dirigiu-se, com
seus dois mil homens. Foi surpreendido em 14 de dezembro de 1839 por Teixeira
Nunes que, com sua cavalaria, conseguiu dividir a tropa legalista e o fez
retroceder. Em um renhido combate as tropas legalistas foram derrotadas. O
brigadeiro, ferido e protegido por alguns oficiais, tentou escapar e, ao cruzar
o Rio Pelotas, morreu afogado.
Os
farroupilhas retomaram Lages novamente, mas as tropas legalistas foram
reforçadas por uma divisão vinda de Cruz Alta, sob o comando do coronel Antônio
de Melo Albuquerque, o "Melo Manso".
Garibaldi
e Teixeira Nunes, pressentindo um ataque, dividiram suas tropas, uma partindo
para o norte, onde, perto do Rio Marombas encontrou uma tropa legalista
superior em 12 de janeiro de 1840. Os republicanos foram dizimados e, dos 500
iniciais, menos de 50 conseguiram retornar a Lages e depois voltar ao Rio
Grande do Sul.
1840: os farrapos perdem
território
Até
o ano de 1840, podia-se perceber um período de ascensão farroupilha, com várias
vitórias no campo militar. Após esse período, é perceptível uma situação de
decadência, iniciada com a queda de Laguna. O general Andréa, que havia
retomado Laguna, logo é nomeado o novo Presidente Imperial da Província de São
Pedro do Rio Grande do Sul e Comandante do Exército Imperial na província.
Também começaram as desavenças políticas entre os farroupilhas, com
consequências funestas no futuro.
No
começo de 1840, os farroupilhas controlavam boa parte do interior, mas não
tinham uma saída para o mar. Além disso, enquanto as tropas rio-grandenses se
concentravam no cerco de Porto Alegre, Caçapava, a capital da República desde
14 de fevereiro de 1839, considerada inexpugnável por causa do difícil acesso,
foi invadida pelos imperiais. Instalou-se a capital em Alegrete, em 28 de
março.
No
mesmo ano, no combate de Tabatingaí, João Propício Mena Barreto e suas tropas
derrotaram 250 farroupilhas, prendendo Onofre Pires, levado para Porto Alegre.
Em Julho os Farrapos perderam São Gabriel. Francisco Pedro de Abreu, o
Moringue, surpreendeu Antônio de Sousa Neto, quase fazendo-o prisioneiro.
Finalmente Bento Gonçalves, em campanha pela conquista de São José do Norte
junto com Domingos Crescêncio de Carvalho e 1.200 homens, travou duríssima
batalha de quase nove horas, tomando a cidade por pouco tempo. A reação vinda
de Rio Grande expulsou os persistentes farrapos.
Estes
insucessos e alguns desentendimentos com Bento Gonçalves deram pretexto a Bento
Manuel, tido como fiel da balança do confronto, para abandonar os
revolucionários. Escreveu ao Ministro da Guerra da República, José Mariano de
Mattos, demitindo-se do exército, ao mesmo tempo em que escrevia para o presidente
da província pedindo uma anistia para si e alguns amigos. Anistiado, foi
refugiar-se no Uruguai, desiludido com o sistema republicano que, segundo ele,
"parece em teoria governo dos anjos, porém na prática nem mesmo para
diabos serve".
Bento
Gonçalves, ainda no ano de 1840, em decorrência dos insucessos, acenou ao
império com a possibilidade de acordo. Bento pediu a Álvares Machado
salvo-condutos para que companheiros seus pudessem atravessar impunemente os
locais conquistados pelo império, a fim de acertar com os chefes imperiais os
detalhes de uma rendição coletiva dos Farrapos. Levavam, efetivamente, uma
carta com este desígnio. Porém, havia uma outra mensagem oral a ser dada
àqueles líderes, que não podia ser escrita. A manobra, porém, foi tão bem
pensada e executada que enganaria até mesmo seus companheiros de luta, e
motivou uma carta de reprovação escrita por Domingos José de Almeida, então
Vice-Presidente e Ministro da Fazenda da República Rio-Grandense.
Os
combates continuaram em diversas frentes: em novembro de 1841, Chico Pedro fez
20 prisioneiros e tomou 400 cavalos dos Farroupilhas, perto de São Gabriel; em
Rincão Bonito o coronel João Propício Mena Barreto provocou 120 mortes, fez 182
prisioneiros e tomou 800 cavalos; em 20 de janeiro de 1842 Chico Pedro, atacado
por Bento Gonçalves e 300 homens, derrotou-o, provocando 36 mortes, 20
prisioneiros e capturando toda a bagagem, sofrendo somente 3 mortes e 7 feridos.
Uma
Assembleia Constituinte havia sido convocada em 10 de fevereiro de 1840, porém
manobras de Bento Gonçalves, que não queria perder poderes, levaram a que
somente em 1842 fosse promulgada a Constituição da República, o que deu um
ânimo momentâneo à luta.
Reforços Liberais
A
Revolução Liberal de 1842 entusiasmou os farroupilhas, a ponto de Bento
Gonçalves ter feito um pronunciamento em Cacequi em 13 de julho 1842. Este
entusiasmo foi de curta duração, pois as revoltas pouco duraram. O fim das
rebeliões em outras províncias, como a Sabinada na Bahia e a Revolução Liberal
de São Paulo, trouxeram novos reforços às tropas farrapas. Entre eles, vieram
da Bahia:
·
Daniel
Gomes de Freitas (signatário depois do tratado de paz)
·
coronel
Manoel Gomes Pereira, que financiou a fuga de Bento Gonçalves. Saiu da Bahia no
início de janeiro de 1838, estava em Montevidéu em missão de recrutamento
quando a Sabinada acabou e dali foi procurar seus amigos rio-grandenses, sendo
bem acolhido e presenteado por Bento Gonçalves com o posto de coronel, servindo
no Estado Maior. Veio com uma fortuna arrecadada para comprar barcos de guerra,
que jamais navegaram, mas adquiriu uma chácara em Montevidéu, depois de cobrar
de Bento o dinheiro que tinha lhe emprestado.
·
João
Rebelo de Matos, Bento José Roiz, José Pinto Ribeiro, João Francisco Régis,
todos militares transferidos da Bahia e envolvidos na Sabinada e que se
rebelaram na Fortaleza da Barra do Sul, na Ilha de Santa Catarina, entregando a
fortaleza aos Farrapos e se juntando ao movimento, em 1839.
·
Francisco
José da Rocha, teria vindo da Bahia acompanhando Bento Gonçalves, era a maior
autoridade maçônica na província; sua promoção a tenente-coronel pelos
farroupilhas foi um dos motivos que levaram Bento Manuel a abandonar o lado
republicano.
·
João
Rios Ferreira
De
São Paulo veio Rafael Tobias de Aguiar, chefe da Revolução Liberal de 1842, que
com cinco companheiros se dirigiu para a região das Missões. Foi pouco depois
preso em Palmeira das Missões, junto com seu enteado Felício Pinto de Castro,
pelo capitão Benedito Martins França, sem ter conseguido se reunir com os
rebeldes. Foi levado para a Fortaleza da Laje, no Rio de Janeiro.
Por
outro lado, o fim destas outras rebeliões também liberou as tropas do exército
brasileiro para concentrarem todos seus esforços contra os farroupilhas e
precipitar o final da guerra.
A
República Rio-Grandense não ficou isenta das disputas pelo poder. Em dezembro
de 1842, quando se instalou a Assembleia Constituinte Farroupilha, as
divergências se exteriorizaram, contrapondo a maioria de Bento Gonçalves e a
minoria de Antônio Vicente da Fontoura. Isto levou a que o projeto de
Constituição, publicado em fevereiro de 1843, tivesse prejudicada a sistematização
das ideias de todos aqueles que ainda estavam na revolução ou a apoiavam.
Em
4 de agosto de 1843, Bento Gonçalves renunciou à presidência da República
Rio-grandense por conta de uma campanha de intrigas, assumindo seu vice Gomes
Jardim. Lançou ao mesmo tempo um manifesto dizendo-se acometido de uma
enfermidade pulmonar, que talvez já o estivesse incomodando, e incitou os
farroupilhas a se unir em torno do novo presidente. Passou em seguida a
comandar uma divisão do Exército Rio-Grandense.
Os
opositores, entre eles o deputado Antônio Vicente da Fontoura, induziram Onofre
Pires a destratar Bento Gonçalves, acusando-o do assassinato de Paulino da
Fontoura. Onofre foi por isso desafiado por Bento para um duelo, realizado em
27 de fevereiro de 1844. Durante o duelo Onofre foi ferido no braço direito e,
apesar de socorrido por Bento, faleceu dias depois, por complicações advindas
do ferimento.
Batalha de Porongos
A
primeira negociação de paz ocorreu com a nomeação de Francisco Alves Machado
para presidente da província, o qual ofereceu a Bento Gonçalves anistia plena
para negociar um tratado. Bento respondeu em carta, a 7 de dezembro de 1840,
propondo que: as dívidas contraídas pela república fossem pagas pelo governo
imperial, os escravos que haviam sido alistados como soldados republicanos
fossem libertados e que os oficiais revolucionários fossem garantidos em seus
postos, quando aproveitados em serviço da Guarda Nacional. Para melhor firmar o
tratado, Bento Gonçalves solicitou uma conferência com o presidente, porém
Alvares Machado negou-a por saber que os farrapos tentavam aliciar à sua causa
diversos legalistas, como o coronel Manduca Loureiro e o coronel João da Silva
Tavares. A recusa da conferência importou em suspensão da anistia e consequente
continuação da luta.
O
sistema de guerrilha e a troca constante de presidentes e comandantes de armas
prolongaram a luta até que o Barão de Caxias (futuro Duque) foi nomeado
Presidente da Província e Comandante Supremo Imperial em 9 de novembro de 1842,
reorganizando o exército e chamando Bento Manuel Ribeiro, que tinha se
recolhido para o Uruguai, para seu Estado Maior. O barão empregava toda sua
força de 12.000 homens, conhecimento, inteligência e experiência para minar a
relativa supremacia farrapa no interior, que contava com apenas 3.500 homens.
Entre as várias ações, iniciou uma campanha de estrangulamento da economia da
república, atacando as cidades da fronteira que permitiam o escoamento da
produção de charque para Montevidéu e Laguna, comprando cavalos para impedir
que os Farrapos tivessem montaria e reativando o comércio.
Lima
e Silva, porém, não conseguiu atrair os farrapos para uma batalha campal
decisiva. O exército republicano, sabendo de sua inferioridade numérica e de
armamentos, evitou o combate direto, tendo a campanha permanecido como uma
série de pequenos combates e escaramuças; quando perseguidos, os farroupilhas
se refugiavam no Uruguai.
Em
1844, Fructuoso de Rivera propôs intermediar a paz entre legalistas e
republicanos. Manuel Luís Osório foi enviado ao acampamento de Rivera, onde
encontrou-se com Antônio Vicente da Fontoura, para avisar que Lima e Silva
recusava a proposta de paz, mas que poderia haver tratativas com o governo,
porém sem a presença de terceiros. Vicente da Fontoura foi enviado à corte para
discutir a paz.
Luís
Alves de Lima e Silva recebeu instruções do império, que temia o avanço de
Rosas sobre o território litigante, para propor condições honrosas aos
revoltosos, como a anistia dos oficiais e homens, sua incorporação ao Exército
Imperial nos mesmos postos e a escolha do Presidente da Província pela
Assembleia Provincial, taxações sobre o charque importado do Prata.
Entretanto,
uma questão permanecia insolúvel, a dos escravos libertos pela República para
servir no exército republicano. Para o Império do Brasil, era inaceitável
reconhecer a liberdade de escravos dada por uma sedição, embora anistiasse os
líderes da mesma revolta.
Em
novembro de 1844, estavam todos em pleno armistício. Suspensão de armas,
condição fundamental para que os governos pudessem negociar a paz, levando ao
relaxamento da guarda no acampamento da curva do arroio Porongos. Canabarro e seus
oficiais imediatos foram a uma estância próxima visitar a mulher viúva de um
ex-guerreiro farrapo e o coronel Teixeira Nunes e seu corpo de Lanceiros Negros
descansavam. Foi então que apareceu Moringue, de surpresa, quebrando o decreto
de suspensão de armas. Mesmo assim o corpo de Lanceiros Negros, cerca de 100
homens de mãos livres, pelearam, resistiram e bravamente lutaram até a
aniquilação, em uma posição de difícil defesa. Além disso, foram presos mais de
300 republicanos entre brancos e negros, inclusive 35 oficiais.
O
general Canabarro, recuperado, reuniria ainda todo o restante de seu exército,
cerca de 1.000 homens, e atacaria Encruzilhada em 7 de dezembro de 1844,
tomando-a e mostrando assim que a sua intenção não era entregar-se.
Tratado de Poncho Verde
Por
fim, a 1 de março de 1845, assinou-se a paz: o Tratado de Poncho Verde ou Paz
do Poncho Verde, após quase dez anos de guerra que teriam causado 47 829 mortes.
Entre suas principais condições estavam a anistia plena aos revoltosos, a
libertação dos escravos que combateram no Exército piratinense e a escolha de
um novo presidente provincial pelos farroupilhas. O cumprimento parcial ou
integral do tratado até hoje suscita discussões. A impossibilidade de uma
abolição da escravatura regionalmente restrita, a persistência de animosidade
entre lideranças locais e outros fatores administrativos e operacionais podem
ter ao menos dificultado, senão impedido o cumprimento integral do mesmo. Tal
discussão é remetida para o artigo principal deste assunto.
Do
destino dos escravos libertos sobreviventes há poucas informações devido aos
poucos documentos históricos sobre o assunto. Alguns acompanharam o exército do
general Antônio Neto em seu exílio no Uruguai, outros foram incorporados ao
Exército Imperial no Rio de Janeiro. Algumas fontes indicam a possibilidade de
que alguns foram vendidos novamente como escravos no Rio de Janeiro mas isto
está longe de ser comprovado.
A
atuação de Luís Alves de Lima e Silva foi tão nobre e correta para com os
oponentes que a província, novamente unificada, o indicou para senador. O
império, reconhecido, outorgou ao general o título nobiliárquico de Conde de
Caxias (1845). Mais tarde, (1850), com a iminência da Guerra contra Rosas,
seria indicado presidente da Província de São Pedro do Rio Grande.
O desfecho do conflito e a
repercussão na vizinhança do Prata
A
conclusão da paz com a manutenção da integridade territorial não foi bem
recebida pelos vizinhos do Império do Brasil. Bormann, a esse respeito, explica
que:
“Sonhos de anexação, separação do
Rio Grande, fronteira para base de operações na República Oriental pela
caudilhagem militar, sôfrega de assentar-se na curul presidencial; tudo, tudo
acabado! A proclamação de David Canabarro que era, então, general em chefe dos
revolucionários, anunciando a paz, foi lida e comentada nas repúblicas vizinhas
com avidez e paixão, e é claro que os chefes da revolução outrora tão
elogiados, tão considerados, foram postos pela rua da amargura. Não houve
insultos que não fossem atirados sobre os ex-amigos, os ex-aliados,
especialmente porque Canabarro aludia a um poder estranho que ameaçava a
integridade do Império...”
Loudspeaker.svg? Hymno
Republicano Rio-grandense de 1835
Notas
sobre o "Hymno republicano rio-grandense de 1835": A partitura
manuscrita pertence ao acervo do Museu Júlio de Castilhos, Porto Alegre, e nela
consta a inscrição "Este hino foi solfejado pelo m...(palavra ilegível,
interpretada pelos técnicos do Museu como ministro) Augusto Pereira Leitão,
revolucionário de 35". O acorde de 7ª na abertura foi realizado como um
arpeggio à guisa de introdução. Foram alterados acidentes nos compassos 14 e 18
que indicavam Lá#, incongruente com a clave de Fá maior (talvez erro de cópia),
e acrescentado um # no Fá do baixo, que constava natural contra um Fá# da
melodia acima, na falsa preparação para Sol menor. Também uma nota do baixo do
segundo compasso foi alterada de Lá para Sib por aparentemente ser um erro de
harmonia, comparando-se com passagem idêntica mais adiante que traz o Sib no
mesmo ponto.